Oito em cada dez empresas no Brasil enfrentam dificuldades para preencher vagas de trabalho. O problema ocorre em um momento em que a taxa de desemprego está em mínimas históricas. A constatação é de uma pesquisa da consultoria ManpowerGroup, que ouviu 1.020 companhias.
Na Solo Network, empresa paranaense de cibersegurança e inteligência artificial, há 21 vagas abertas. Os salários variam de R$ 10 mil a R$ 20 mil para cargos como arquiteto de soluções, engenheiro de dados e gerente de contas. As contratações na área de segurança levam 45 dias, mas vagas comerciais demoram até três meses.
A diretora administrativa da Solo, Zenilda Zanardini, afirma que a falta de profissionais limita o crescimento. “Os qualificados já estão empregados. Se tivéssemos mais vendedores, teríamos ainda mais entrada no mercado”, disse.
Falta de profissionais em vários setores
A rede mineira de supermercados Verdemar tem 500 vagas abertas, o equivalente a quase 10% do seu quadro. Faltam operadores de caixa, atendentes e estoquistas. O diretor comercial, Alexandre Poni, afirma que os salários e benefícios não são suficientes para atrair candidatos. “Não tem gente para trabalhar em BH”, disse.
Para tentar atrair funcionários, a rede implementou um esquema de jornada com mais folgas em oito lojas. O modelo exige de 15% a 20% mais empregados por loja e aumentou os custos. Poni diz que torce por um prazo de adaptação caso a PEC que reduz a jornada semanal seja aprovada, pois a medida seria “altamente inflacionária”.
A Livraria Leitura também enfrenta dificuldades para preencher vagas de entrada. O número de candidatos por vaga caiu pela metade. Para contornar a situação, a empresa tem flexibilizado os perfis e contratado pessoas mais velhas.
O problema é mais grave em setores como comércio, tecnologia, saúde e infraestrutura. Na plataforma de vagas Gupy, o varejo concentrou o maior volume de ofertas no primeiro semestre, com destaque para supermercados.
Estratégias regionais e setoriais
A empresa de atendimento ao cliente AeC expandiu sua operação para o Nordeste a partir de 2012 para encontrar mão de obra. A região tem maior desocupação. A empresa tem 56 mil funcionários, sendo mais de 45 mil no Nordeste. A estratégia inclui recrutamento digital, horários flexíveis e home office para atrair jovens e mulheres.
No setor de petróleo, a falta de profissionais é grave. Segundo a Abespetro, um levantamento com 35 empresas identificou 40 mil vagas abertas em 2024. Faltam soldadores, técnicos em química e engenheiros. A federação das indústrias do Rio (Firjan) criou um programa para atualizar currículos e conectar a academia às empresas.
Para Karen Cubas, da Universidade do Instituto Brasileiro de Petróleo, a escassez tem relação com a demografia. Profissionais mais velhos estão se aposentando em um momento de expansão dos projetos offshore, acima da capacidade de reposição. O Brasil é o quarto país entre 42 nações com maior intenção de contratação entre julho e setembro, segundo a ManpowerGroup. Dos 1.080 empregadores entrevistados, 52% pretendem ampliar as equipes.
