Há décadas, a Índia convive com uma contradição injustificável. A ciência para prevenir o câncer de colo de útero existe, mas as mortes ainda persistem. Porém, a decisão recente do país indica uma mudança decisiva nesse quadro.
Com o Orçamento Federal 2026–27 reservado para a distribuição nacional da vacina contra o papilomavírus humano (HPV) para meninas adolescentes, a Índia sinaliza que a prevenção do câncer de colo de útero passou a ser uma prioridade política. Prapti Sharma, especialista na área, destaca que a falta de prevenção não era decorrente da falta de conhecimento biomédico, e sim de uma falha na execução oportuna.
Em 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) propôs não um controle incremental, mas uma eliminção efetiva do câncer de colo de útero, por meio da vacinação de 90% das meninas contra o HPV, rastreamento de 70% das mulheres com testes de alta performance e tratamento de 90% dos casos identificados. Claramente, a Índia endossou a proposta.
Apesar dos progressos fragmentados, com a triagem inserida no Programa Nacional de Prevenção e Controle de Doenças não Transmissíveis, e a ampliação de centros de atenção à saúde, a vacinação, a intervenção mais eficaz a montante, não se tornou a regra dentro do esquema de imunização de rotina da Índia.
Essa tendência, entretanto, deve ser alterada com o anúncio de 2026. A campanha de imunização proposta deve utilizar a vacina quadrivalente contra o HPV, que protege contra os tipos 16 e 18 do virus, responsável por aproximadamente 70% dos casos de câncer de colo de útero globalmente, bem como os tipos 6 e 11, que causam verrugas genitais. Com a vacinação em larga escala, é possível interromper a infecção em sua etapa mais precoce, prevenindo a transformação celular que antecede a mortalidade por câncer.
Entretanto, é necessário manter o otimismo disciplinado. A prevenção do câncer de colo de útero é um continuum: vacinação, rastreamento, diagnóstico e tratamento.
No momento atual, acarretando uma transformação significativa, a vacinação contra o HPV pode se institucionalizar dentro do programa universal de imunização da Índia, com financiamento assegurado, continuidade no fornecimento, monitoramento transparente e fortalecimento paralelo de vias de rastreio e tratamento. A OMS já comprovou que a eliminação é matematicamente viável. Vários países estão se aproximando do limiar de eliminação definido e a Índia possui a capacidade científica, a base de fabricação doméstica e a experiência programática para se juntar a eles.
O preço do atraso já foi pago em funerais evitáveis, em famílias que foram empurradas para o sofrimento financeiro e em crianças que cresceram sem suas mães. A promessa de prevenção agora está ao alcance. Longe de ser apenas mais uma adição ao calendário de imunizações, a vacina representa uma declaração contundente de que a prevenção antecede a crise e de que a saúde das mulheres justifica investimentos antecipados.
