Há frases que atravessam o tempo porque encerram uma contradição permanente da condição humana. “É preciso que tudo mude para que tudo continue como está” — a sentença atribuída ao personagem Tancredi Falconere, do romance O Leopardo (de Giuseppe di Lampedusa), tornou-se uma metáfora da política, da sociedade e das instituições. A frase descreve com precisão muitos movimentos do tempo atual.
Mudanças costumam ser anunciadas com fanfarra. Trocam-se nomes, slogans, bandeiras, equipes, discursos e métodos de comunicação. Reformam-se fachadas. Multiplicam-se promessas de renovação. Mas, por trás do palco iluminado, os mecanismos profundos do poder permanecem intactos. A mudança, nesse caso, é uma adaptação estética para preservar estruturas. É a “mudança para inglês ver”. A política oferece exemplos abundantes. A palavra mudança teve papel central no discurso de posse de Lula.
Em 1º de janeiro de 2023, na abertura de sua fala ao Congresso Nacional, Lula marcou simbolicamente o retorno ao governo, associando-o à ideia de reconstrução e transformação do país. Ele começou assim: “A mensagem que quero deixar ao povo brasileiro é a de esperança e reconstrução. A grande mensagem do Brasil é a de mudança”.
Será mesmo que o Brasil mudou? A avaliação negativa de seu terceiro mandato é superior à avaliação positiva com dez pontos de diferença. Caso seja eleito, a palavra mudança continuará a ser a palavra-chave de um eventual quarto mandato? Ou a mudança será meramente cenográfica?
Partidos se reorganizam, alianças mudam de endereço ideológico, lideranças surgem com o discurso do novo, mas reproduzem velhos costumes: centralização decisória, loteamento de espaços, culto à personalidade e apego ao aparelho estatal. O eleitor percebe a troca de embalagem, mas encontra o mesmo produto na prateleira.
Esse fenômeno não é exclusivo da política. Empresas falam em inovação enquanto conservam modelos hierárquicos rígidos. Organizações anunciam revoluções tecnológicas sem alterar práticas de gestão. Universidades incorporam novas plataformas digitais, mas mantêm métodos pedagógicos de séculos passados. Até as relações humanas experimentam o paradoxo: mudam as formas de comunicação, permanecem as angústias, os afetos e os conflitos.
A era digital intensificou esse mecanismo. Nunca houve tanta velocidade na circulação de informações. Nunca se produziram tantas narrativas de ruptura. E o mundo pareceu preso a padrões repetitivos. As redes aceleram a aparência de mudança, mas nem sempre transformam substâncias. O espetáculo da novidade pode esconder a permanência das desigualdades, dos privilégios e dos vícios institucionais.
Há, porém, outra leitura possível. Nem toda mudança para conservar é negativa. Algumas transformações são necessárias para proteger valores essenciais. Uma democracia precisa renovar instituições para preservar a liberdade. Uma sociedade precisa atualizar leis para manter a justiça. Uma empresa precisa inovar para conservar competitividade. Uma família muda hábitos para preservar vínculos.
O desafio está em distinguir mudança verdadeira de mudança cenográfica. As grandes transformações históricas não ocorreram porque se trocaram personagens. Ocorreram quando se alteraram relações, regras, mentalidades e expectativas coletivas. A abolição não foi apenas o fim formal da escravidão; foi o início de uma lenta reconstrução social. A redemocratização não consistiu apenas em substituir governantes; exigiu reerguer instituições e restaurar a confiança pública.
Vivemos um tempo em que a palavra mudança se tornou moeda corrente. Todos prometem mudar. Poucos explicam o que desejam conservar. A pergunta decisiva é: mudar para quê? Há mudanças que reciclam o passado e há mudanças que inauguram futuros. A frase continua atual porque revela um traço permanente da história: os sistemas resistem, adaptam-se e sobrevivem. Mas a sociedade, quando desperta, descobre que não basta trocar os móveis da sala. Às vezes, é preciso reconstruir a casa.
