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Hot-dog de R$ 9 e amizade: a rotina de Dona Célia no Trevo

Box Notícias17 de agosto de 2026 · 3 min de leitura
Hot-dog de R$ 9 e amizade: a rotina de Dona Célia no Trevo
Dona Célia faz tudo sozinha e trocará carrinho por trailer para mais qualidade no serviço. (Foto: Amanda Santos)

Há sete anos, o Trevo Imbirussu, em Campo Grande, tem um ponto de encontro para quem busca um lanche simples e barato. É lá que Célia Maria, de 64 anos, vende seu cachorro-quente por R$ 9. O que começou como uma forma de voltar ao mercado de trabalho virou uma rotina que ela diz amar.

Célia conta que trabalhava com uma amiga que confeccionava uniformes. Quando a amiga se casou e deixou a cidade, ela ficou sem trabalho. Foi então que decidiu apostar em uma comida que sempre gostou. “Eu estava parada, não fazendo nada, e não fazer nada é ruim. Aí foi quando eu vi os carrinhos de cachorro-quente e falei: ‘Vou fazer isso’”, lembra.

O ponto funciona de segunda a sábado, a partir das 18h, ao lado da Drogafic. O lanche é preparado de forma simples, com molho tradicional, e o diferencial está no purê e no preço: R$ 9 com uma salsicha e R$ 10 com duas. A simplicidade é uma marca registrada. Alguns clientes sugerem novos ingredientes, como muçarela, mas a maioria prefere que continue como está, e Célia respeita isso.

A clientela cresceu para além da vizinhança. “Tem gente de lá do São Dimas, do São Conrado, que vem de lá até aqui só para buscar o cachorro-quente”, afirma. A relação com alguns clientes ultrapassou a venda. Muitos a chamam de “tia” e mantêm contato pelo WhatsApp. Quando ela precisa faltar, os clientes sentem falta e chegam a procurar informações na farmácia ao lado. “Se eu não venho, eles ligam. Quando eu volto, eles falam: ‘Ei, tia, o que aconteceu com você?’”, conta, rindo.

Entre as histórias que guarda, uma é especial. Um casal chegou ao carrinho contando que tinha acabado de descobrir uma gravidez. Célia arriscou um palpite: “Tenho certeza que vem um guri de olho azul”. Meses depois, eles voltaram para dizer que ela estava certa.

A rotina de Célia começa cedo. Ela compra verduras novas todos os dias e passa na padaria para buscar os pães. Por volta das 10h, já está em casa preparando os ingredientes. O carrinho abre às 18h e o horário de fechamento depende do movimento. Ela vende cerca de 50 pães por noite e costuma ir embora por volta das 22h, mas já chegou a ficar até 1h da manhã. “Como sou sozinha, tento evitar. Se não tiver ninguém, ninguém mesmo, vou embora!”, diz.

Depois da reforma da farmácia vizinha, o ponto ficou mais exposto ao frio e à chuva. Célia decidiu buscar uma solução definitiva, já que não pretende sair do local. “Estou construindo um trailer para poder continuar aqui, mas com mais proteção. O previsto é que ele fique pronto até o final do ano.”

Um cliente, que não quis se identificar, conta que come no local desde o início. Ele estava com a filha, que cresceu frequentando o carrinho. “Eu venho desde quando ela era bebê. Agora, ela vem comigo e come junto, não trocamos o cachorro-quente por nada”, diz.

Dona Célia não se vê fazendo outra coisa. Por mais que exista o cansaço de organizar tudo sozinha, o carinho e as amizades fazem o esforço valer a pena. “Se eu falar para você que às vezes eu não canso de trabalhar à noite, é mentira. Eu canso, mas eu amo e não sei viver longe disso”, finaliza.

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