A indústria da construção se consolidou como um dos principais motores da economia de Mato Grosso do Sul nos últimos 20 anos, impulsionada por investimentos bilionários e pela expansão das cadeias produtivas. O setor tem gerado oportunidades e aberto espaço para as mulheres, que ocupam cada vez mais posições em um mercado de trabalho historicamente masculino.
Marluce de Oliveira Velasquez trabalha como auxiliar de serviços gerais em uma construtora. Ela conta que foi incentivada por uma engenheira a fazer cursos na área da construção civil. Atualmente, é uma das 78 mulheres que iniciaram cursos como Pedreira de Alvenaria, Pintora Imobiliária e Eletricista Predial na Faculdade Senai da Construção, em Campo Grande.
“Meu pai dizia para eu estudar e melhorar de vida. Eu não dava importância. Hoje sinto a importância e o peso daquelas palavras. Pretendo me aprofundar e aproveitar todas as oportunidades que surgirem. Estou correndo atrás para melhorar cada vez mais”, conta Marluce, aluna do curso de eletricista residencial.
Projeto Elas Constroem
O projeto Elas Constroem é uma iniciativa do Sinduscon-MS (Sindicato Intermunicipal da Indústria da Construção do Estado de Mato Grosso do Sul), em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e o Senai. O objetivo é oferecer formação gratuita a mulheres interessadas em ingressar na indústria da construção e servir como ponte entre as novas profissionais e o mercado de trabalho. Construtoras parceiras, como Plaenge, Vanguard, Jooy e MRV, promovem feiras de empregos para recrutar alunas assim que elas concluem os cursos.
Em 2025, o projeto formou 21 operadoras de BobCat, 10 assentadoras de revestimento e 9 pintoras de obras. Para este ano, a previsão é aumentar o número de formadas e concluir uma turma de orçamentista de obras. Para muitas mulheres, o curso representa a conquista da autonomia. Mesmo aposentada após mais de três décadas no serviço público, Ramona Pinto de Souza decidiu fazer o curso de Pedreira de Alvenaria.
“O que me motivou foi a necessidade de resolver pequenos problemas em casa e não depender de ninguém. Na hora de chamar um profissional, às vezes não é o horário que a gente precisa, ou não fica como a gente quer. Então, resolvi aprender as técnicas e fazer por minha conta”, afirmou.
Talento feminino em alta
Segundo a coordenadora pedagógica do Senai, Dyany Melchior, características como organização, atenção aos detalhes e visão crítica têm sido cada vez mais valorizadas pelas empresas do setor. “As mulheres olham em detalhes, têm um capricho maior, e isso gera menos perda de materiais. As empresas parceiras do projeto nos pedem para treiná-las o máximo possível, e muitas mulheres já saem empregadas assim que concluem o curso”, explica.
O avanço não acontece apenas nas funções operacionais. Há algumas décadas, era raro encontrar uma mulher em uma turma de Engenharia Civil. Hoje, profissionais ocupam posições estratégicas em grandes construtoras do país. A trajetória da engenheira civil Valéria Gabas simboliza essa transformação. Ela construiu uma carreira sólida até alcançar uma posição de liderança na Plaenge.
“À medida que a gente se fortalece e divulga essa presença feminina, as mulheres se sentem aptas a também avançar nessas carreiras. E aí a importância do projeto Elas Constroem, que impulsiona mais mulheres a entrarem para esse mercado, se desenvolverem e quererem liderar uma área que historicamente foi ocupada por homens”, afirmou a diretora, durante a aula inaugural de mais um módulo do projeto.
Números do setor
Somente no primeiro semestre de 2026, a construção civil respondeu por 6.066 novos empregos formais em Mato Grosso do Sul, o equivalente a quase 64% de todas as vagas geradas pela indústria. Ao final do período, o segmento empregava 44.741 trabalhadores com carteira assinada, representando quase um quarto da mão de obra industrial do Estado. O desempenho acompanha um cenário de investimentos que projeta mais de R$ 115 bilhões para o Estado até 2030, com recursos destinados a áreas como celulose, bioenergia, mineração e transformação industrial da produção agropecuária.
Desde 2006, o número de indústrias no Estado quase triplicou, gerando mais de 180 mil empregos. O presidente da Fiems, Sérgio Longen, reforça a atuação da entidade no desenvolvimento industrial do Estado. “A Fiems tem participado em cada ponto, em cada lugar, em cada empresa que chega, levando ações para toda a sociedade, seja na área de educação, saúde, qualificação profissional e, acima de tudo, desenvolvimento econômico. As pessoas já sentem a força da indústria em todo Mato Grosso do Sul”, declarou.
