Neste ano, imagens do Rio Sucuri, em Bonito (MS), voltaram a viralizar nas redes sociais como o de “água mais cristalina do mundo”. Conhecido pela transparência incomum, o motivo da preservação passa por uma regra de “proteção perpétua”. O rio está inserido em uma área de proteção privada, o que lhe garante maior nível de preservação ambiental. Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, Thyago Sabino, o atrativo turístico faz parte da RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), localizada na Fazenda São Geraldo, o que fortalece a conservação do recurso hídrico.
Sabino afirma que essa categoria de unidade de conservação assegura proteção permanente à área. “Depois que uma RPPN é criada, ela não pode ser desfeita. A legislação garante caráter perpétuo a essas unidades”, afirmou.
Reserva e localização
Localizada a cerca de 18 quilômetros de Bonito, a área preservada ocupa 642 hectares, o equivalente a 7,63% dos 8.406 hectares da fazenda. Atualmente, a RPPN desenvolve atividades voltadas ao turismo sustentável, recreação, educação ambiental e pesquisas científicas.
O Rio Sucuri integra a sub-bacia do Rio Formoso. Do alto, seu traçado sinuoso lembra o corpo da cobra que lhe dá o nome. Já à superfície, impressiona pelos tons que variam entre o azul-turquesa e o verde, em uma paleta que muda conforme a luz e o ângulo de observação.
O fotógrafo e videomaker Eduardo Alves conhece de perto a beleza do local, e suas publicações nas redes sociais têm surpreendido os internautas. Nascido em Bonito, Eduardo afirma que entende o encanto, pois o lugar dispõe de água cristalina e em tom azul. De dentro de um barco, por exemplo, é possível enxergar com nitidez o fundo arenoso. Recentemente, um grupo de turistas portugueses flagrou o momento em que uma sucuri abocanhou um porco-do-mato dentro da água.
Para o secretário de Meio Ambiente, o episódio comprova a qualidade ambiental que Bonito mantém. Para ele, foi um “feito extremamente raro poder ver e a presença humana participar de uma ação natural como essa”.
Característica cristalina
Segundo o biólogo José Sabino, doutor em Ecologia, essa característica está diretamente ligada à geologia da região, pois Bonito está assentada sobre um solo rico em calcário. A água, levemente ácida antes de infiltrar, dissolve esse material ao atravessar o subsolo. Atualmente diretor da produtora Natureza em Foco, ele explica que esse processo desencadeia um efeito natural semelhante ao de produtos usados para limpar piscinas, quando as partículas em suspensão se agregam e se depositam no fundo.
“Não é uma filtragem mecânica. É um processo químico natural que faz com que as impurezas decantem”, explica o biólogo. Por conta disso, a água é excepcionalmente límpida. Medições realizadas indicaram níveis de transparência muito elevados nos rios da região, avaliados na horizontal, já que a profundidade é relativamente baixa. No Sucuri, alguns pontos atingem cerca de 3 metros, mas a visibilidade ultrapassa essa dimensão, criando a sensação de um ambiente quase sem barreiras visuais.
Para José Sabino, o Rio Sucuri “sem dúvida é a água mais cristalina da região da Serra da Bodoquena”, destacando o protagonismo do rio entre os cursos d’água de Bonito. No entanto, ele pondera que as classificações de que é “um dos três rios mais cristalinos do mundo” são exageradas e pouco precisas do ponto de vista científico. Segundo ele, não é possível estabelecer esse tipo de ranking global, já que existem inúmeros rios ainda não medidos ou comparados com o mesmo rigor.
O diferencial do Sucuri em relação a outros rios da região, conforme o biólogo, está na combinação dessa clareza com a biodiversidade. Ao longo de seu curto percurso, o rio abriga cerca de 25 espécies de peixes, além de invertebrados e 12 espécies de plantas aquáticas. Essa riqueza biológica se distribui entre bancos de macrófitas, nascentes que brotam com força e trechos de fluxo constante ao longo do ano. Mesmo em períodos de chuva, quando a turbidez aumenta temporariamente, a água recupera sua limpidez em poucas horas graças à ação do calcário. Já na estiagem, o volume diminui, mas sem comprometer a continuidade do rio nem as atividades turísticas.
Diferentemente dos rios mais frios da região, como o Formoso, as nascentes do Sucuri mantêm águas em torno de 23 a 24 graus, consideradas confortáveis, especialmente durante os passeios de flutuação, uma das atividades mais procuradas pelos visitantes.
RPPN Fazenda São Geraldo
Criada oficialmente em 21 de maio de 1998, a RPPN Fazenda São Geraldo nasceu por iniciativa dos proprietários da fazenda, com apoio do poder público, para ampliar a proteção ambiental da área e incentivar atividades de ecoturismo, educação ambiental e pesquisas científicas. A unidade foi a segunda Reserva Particular do Patrimônio Natural reconhecida pelo Estado. A reserva protege áreas úmidas e fragmentos do bioma Cerrado, com predominância de florestas semideciduais e matas ciliares ao longo do Rio Formoso e de toda a extensão do Rio Sucuri.
Ação do poder público
Conforme o secretário Thyago Sabino, o poder público atua no entorno da área com ações de manutenção e conservação, como melhorias em estradas vicinais e implementação de curvas de nível em propriedades próximas, contribuindo para a preservação do rio. Segundo ele, as RPPNs também têm impacto financeiro positivo para os municípios, pois integram os critérios de distribuição do ICMS Ecológico (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), mecanismo estadual que repassa recursos a cidades que possuem áreas protegidas, sejam públicas ou privadas. “O território que abriga unidades de conservação acaba sendo recompensado por meio desses programas”, destacou o secretário.
Os recursos do imposto são destinados à Prefeitura, que deve, anualmente, comprovar a aplicação do dinheiro em gestão de resíduos sólidos e conservação das unidades de conservação. Entre as ações consideradas estão a manutenção de acessos, apoio à infraestrutura, sinalização, divulgação e iniciativas de educação ambiental. No caso de Bonito, o secretário cita como exemplo a manutenção das estradas de acesso ao Rio Sucuri e o apoio a outras áreas protegidas, como o Parque Nacional da Serra da Bodoquena.
