O professor José Roberto Castilho Piqueira, da Escola Politécnica da USP, escreve sobre a relação entre o tempo, a vida e o trabalho, a partir de leituras e reflexões sobre o tema. Engenheiro dedicado ao estudo do sincronismo entre marcadores de tempo, ele afirma que a observação de objetos do dia a dia permite estabelecer marcas do fluxo temporal.
Segundo ele, em todas as formas de vida no planeta existe um aprendizado sobre o tempo. Esse processo está presente nas relações estudadas pelas ciências sociais, filosofia, biologia e física. O livro Objects of Time, do professor de Antropologia Kevin K. Birth, do Queens College – CUNY, indicado pelo crono-biólogo Luiz Menna Barreto (EACH-USP), é citado como fonte de relações científicas sobre o assunto.
O texto menciona uma passagem do livro que tenta entender como, na Europa medieval, era possível saber as horas durante a noite, sem a observação da posição do Sol. A hipótese é que técnicas de observação do movimento das estrelas foram criadas para isso. O autor observa que a consciência humana levou à troca das medidas de tempo ligadas aos ciclos da natureza por medidas de objetos manufaturados.
Piqueira comenta que, hoje, o toque do despertador parece mais importante que o nascer do Sol, interrompendo o ciclo de sono de quem precisa cumprir horários de trabalho. Ele lembra que, conforme aprendeu com especialistas em Cronobiologia, os sistemas temporais dos organismos têm períodos aproximadamente uniformes, mas apresentam diferenças individuais na escala circadiana, devido a variações naturais.
Essas diferenças podem provocar distúrbios de saúde física e mental. O autor relaciona o tema à ergonomia e ao filme Tempos Modernos, de Charlie Chaplin, de 1936. Ao revisitar a obra após ouvir o colega Laerte Idal Sznelwar (1956-2025) falar sobre ergonomia, Piqueira conclui que a visão atual do tempo é pouco consistente com a vida.
O professor aponta que os parâmetros de medida do tempo vêm de diferentes raciocínios: múltiplos de dez, relógios atômicos, o calendário Gregoriano, a divisão do dia em 24 horas pelos egípcios e a divisão de horas e minutos em 60 segmentos pelos babilônios. Ele sugere que a vida no planeta oferece unidades de tempo mais interessantes, como o intervalo de oviposição de insetos ou o ciclo de sono de bebês, mas reconhece que usá-las na disciplina diária é inviável.
Piqueira questiona se seria possível observar a fadiga de trabalhadores em diferentes funções, como operar máquinas, dirigir ônibus ou programar computadores. Ele afirma que estabelecer padrões de medida para atividades e diferenças fisiológicas distintas parece impossível. Apesar disso, defende que pensar nos valores dessas medidas pode contribuir para preservar a vida.
O texto cita ainda Robin Wall Kimmerer, autora de O fruto da generosidade, que oferece o exemplo da planta Amelanchier, usada por povos indígenas para sincronizar suas estações e movimentos. O autor conclui que a vida no planeta depende dos tempos relacionados aos fenômenos naturais e que observá-los pode ajudar na preservação.
