O colunista Rodrigo Gonçalves Pimentel, advogado e empresário, publicou uma reflexão sobre o dilema enfrentado por fundadores de empresas familiares quando os herdeiros não desejam dar continuidade ao negócio. O texto aborda a dificuldade de aceitar que vender a empresa pode ser a melhor decisão para preservar o patrimônio e a harmonia familiar.
Segundo o autor, muitos fundadores preferem ver a empresa perder valor ao longo de anos, entrar em recuperação judicial e destruir relações familiares a admitir que os filhos não querem seguir no comando. Para ele, essa postura não representa legado, mas vaidade. O herdeiro que não deseja operar o negócio, mas é mantido nele, se torna refém do patrimônio, em vez de fortalecê-lo.
Pimentel destaca a diferença entre o provedor, que constrói para sustentar, e o dono, que entende o momento certo de realizar. Quando a família não quer tocar a empresa, a decisão madura pode ser vender no tempo e preço certos, transformando a operação em liberdade patrimonial para a próxima geração.
O colunista alerta, no entanto, que vender bem exige preparação. Os melhores negócios são estruturados anos antes da venda. Compradores estratégicos não aparecem no desespero, e fundos pagam mais quando encontram organização, previsibilidade e governança. O timing, segundo ele, muda o valuation do negócio.
Outro ponto levantado é que o problema não termina quando o dinheiro entra na conta. Patrimônio sem estrutura pode gerar confusão familiar rapidamente. O autor cita o exemplo de um empresário que passa 30 anos construindo uma empresa e destrói o patrimônio em 18 meses por falta de organização sucessória. Ele defende a criação de holdings, fundos e estruturas de proteção patrimonial para garantir renda e liberdade a cada herdeiro.
Pimentel ressalta que herança sem preparo financeiro não vira prosperidade, mas excesso. Ele defende que a família precisa conversar sem romantização, imposição ou culpa. “Eu construí isso. Vocês não querem continuar. Eu respeito. Então vamos transformar esse patrimônio em liberdade — e não em obrigação”, sugere como diálogo ideal.
O autor questiona a romantização da “empresa centenária” e afirma que muitas empresas que sobreviveram por gerações só o fizeram porque alguém teve coragem de vender, incorporar, fundir ou mudar de rumo. Para ele, dinastia não é o sobrenome na fachada, mas família unida, patrimônio protegido e capital atravessando gerações.
“Se para isso for necessário vender tudo, talvez isso não seja fracasso. Talvez seja maturidade”, conclui. A verdadeira decisão, segundo o colunista, não é simplesmente vender ou não vender, mas sim escolher entre preservar o ego ou preservar a família.
